Situada nas montanhas de Arouca, no norte de Portugal, esta moradia unifamiliar insere-se numa paisagem marcada pela riqueza natural das suas florestas e vales, mas também pelos crescentes desafios associados às alterações climáticas. Numa região afetada por períodos prolongados de seca e pela recorrência de incêndios florestais, a intervenção desenvolvida pelo CAS Studio parte de uma reflexão sobre o papel da arquitetura na construção de modos de habitar mais resilientes e sustentáveis.
A habitação original, construída há aproximadamente três décadas, apresentava diversas limitações relacionadas com o conforto térmico, a eficiência energética e a relação com o exterior. Embora a sua implantação aproveitasse, em parte, as vistas privilegiadas sobre a paisagem circundante, os espaços interiores revelavam uma organização fragmentada e uma ligação limitada com os pátios e áreas exteriores. A falta de isolamento adequado e diversos problemas de impermeabilização comprometiam igualmente o desempenho global do edifício.
Perante este cenário, o projeto apresenta-se como uma transformação integral que vai além da reabilitação convencional. O objetivo principal consistiu em converter a habitação num refúgio contemporâneo capaz de responder às condições climáticas atuais, reforçando simultaneamente a sua ligação com o ambiente natural.
A estratégia arquitetónica baseia-se na procura de uma relação equilibrada entre arquitetura, paisagem e recursos naturais. Mais do que impor uma nova imagem à construção existente, a intervenção procura realçar as suas qualidades originais, ao mesmo tempo que incorpora soluções que promovem a autossuficiência, o conforto e a eficiência a longo prazo.
A reorganização espacial desempenha um papel fundamental nesta transformação. Os espaços interiores foram redefinidos para favorecer uma maior continuidade entre as áreas sociais e privadas, melhorando a fluidez dos percursos e ampliando a perceção espacial da habitação. Paralelamente, a relação entre interior e exterior foi reforçada através da revalorização dos pátios e das zonas de convívio ao ar livre, agora concebidos como extensões naturais da vida doméstica.
A materialidade do projeto reflete uma abordagem consciente em relação à sustentabilidade e à identidade local. Materiais naturais como a madeira, a pedra, a cal e a cortiça contribuem para melhorar o desempenho ambiental do edifício, ao mesmo tempo que estabelecem um diálogo com as tradições construtivas da região. Elementos concebidos à medida e detalhes cuidadosamente executados conferem uma dimensão artesanal que coexiste com soluções técnicas contemporâneas.
Mais do que uma soma de soluções técnicas, o projeto defende uma arquitetura concebida como um exercício de artesanato contemporâneo, onde a precisão construtiva, a materialidade e o cuidado com os detalhes constituem parte indissociável da experiência de habitar.
A intervenção incorpora igualmente um conjunto de estratégias orientadas para a redução do impacto ambiental e para o aumento da autonomia da habitação. Sistemas de captação e armazenamento de águas pluviais, produção de energia através de painéis fotovoltaicos, otimização da ventilação natural e melhorias significativas no isolamento térmico permitem reduzir a dependência de recursos externos e aumentar a eficiência global do conjunto.
No entanto, o projeto transcende a escala do edifício para abordar questões territoriais mais amplas. Num contexto em que a escassez de água e o risco de incêndios representam desafios crescentes, a habitação propõe uma nova forma de habitar baseada na gestão responsável dos recursos, na valorização das espécies autóctones e numa integração mais consciente com a paisagem.
Longe de entender a sustentabilidade como um conjunto de soluções tecnológicas isoladas, a proposta apresenta uma visão holística em que a arquitetura, a natureza e a vida quotidiana estão profundamente interligadas. O resultado é uma habitação que não só melhora as condições de conforto e habitabilidade dos seus ocupantes, como também oferece uma reflexão sobre a forma como a arquitetura pode contribuir ativamente para a construção de ambientes mais resilientes face aos desafios ambientais do futuro.
INFORMAÇÃO TÉCNICA
Atelier = CAS Studio Architecture
Localização = Arouca, Portugal
Área do projeto (m²) = 230 m2
Ano de conclusão = 2024
Empreiteiro = Jaime Azevedo Construções
Engenharia = VN2R
Fotografia = José F. Costa










