É neste contexto que surge a Casa de Sá, um projeto que se ancora diretamente na memória construída da cidade, estabelecendo um diálogo atento com um edifício vizinho da autoria de Francisco Augusto Silva Rocha, figura central na consolidação da linguagem da Arte Nova em Aveiro. Na mesma rua onde projetou a sua própria residência, Silva Rocha desenhou, no início do século XX, um edifício discreto, mas de inequívoca dignidade, marcado por uma janela circular no piso térreo, vãos ornamentados com motivos florais e um friso cerâmico que remata o conjunto, culminando numa janela de mansarda coroada por um rosto feminino.
A Casa de Sá nasce em relação direta com este edifício. Implantada num lote vazio, recupera volumétrica, material e compositivamente o seu léxico, evocando ritmos verticais e horizontais, alinhamentos altimétricos, a geometria da cobertura e a composição pentapartida da fachada. Mantém o esquema tipológico recorrente na cidade — dois pisos, três vãos e uma janela central na mansarda — incorporando ainda um pátio elevado na parte posterior, uma solução frequente em Aveiro.
Num gesto contido e deliberado, o novo volume recua ligeiramente em relação ao alinhamento da rua, afirmando-se com respeito e capacidade de escuta. O diálogo estabelece-se sem mimetismos literais, prolongando o legado existente sem o antagonizar. O nicho técnico sob um generoso óculo cita diretamente a singular janela circular da casa de Silva Rocha, reinterpretando-a numa linguagem contemporânea.
A materialidade reforça esta relação: o embasamento em pedra calcária, o revestimento cerâmico do piso térreo e a utilização de serralharia e madeira nos pisos superiores estabelecem claros paralelismos com o edifício histórico, propondo simultaneamente uma leitura contemporânea dessas soluções. A Casa de Sá pertence ao seu tempo, mas pertence também, de forma inequívoca, a Aveiro, evocando não apenas a Arte Nova local, mas também as fachadas de madeira dos antigos armazéns de sal da cidade e, de forma subtil, o cromatismo e os ritmos dos Palheiros da Ria.
Programaticamente, o edifício integra duas habitações distintas: um apartamento para arrendamento no piso térreo, compacto e aberto para um pátio posterior através de uma ampla superfície envidraçada; e a habitação principal, desenvolvida entre o primeiro piso e a mansarda.
Na residência superior, uma claraboia central atravessa ambos os pisos, resolvendo a profundidade do lote e marcando o eixo de chegada com uma luz simultaneamente direta e difusa, quase cénica. As áreas sociais orientam-se a sul, para a rua, filtradas por um ripado de madeira, enquanto a suíte se recolhe para a fachada posterior, mais reservada e silenciosa. No piso superior, dois quartos ocupam ambas as fachadas, articulados por áreas técnicas, circulações e um espaço de estudo.
Num território marcado por vazios urbanos e por edifícios habitacionais indiferenciados do início do século XXI, a Casa de Sá afirma-se como um gesto consciente e responsável. Mais do que um edifício, propõe-se como um ensaio sobre continuidade e pertença, demonstrando que é possível intervir no presente sem apagar o passado.
Um projeto onde memória e contemporaneidade se cruzam, e onde a arquitetura se afirma como uma ferramenta de escuta: da cidade, da rua, da história e da vida quotidiana.
INFORMAÇÃO TÉCNICA
Arquitetura: Tiago do Vale Arquitectos
Equipa de projeto: Tiago do Vale, Clementina Silva, Paula Campos, com Adriana Gomes, Alara Çağla, Marija Matozan, Nil Kokulu, Sara Ventura da Cruz e Jan Momot
Ano de projeto: 2019–2021
Programa: Residencial
Localização: Aveiro, Portugal
Construção: Engicivil – Cardoso & Manata Lda.
Especialidades: SIPC Lda.
Ano de construção: 2022–2025
Área de implantação: 110 m²
Área construída: 280 m²
Fotografia: João Morgado







