Habitar na horizontal: Parede Townhouses, o novo projeto do Extrastudio

Na língua portuguesa, o verbo habitar é transitivo, e o Extrastudio explora este conceito nos seus projetos. Por si só, encerra um significado incompleto: habitamos sempre alguma coisa — uma casa, um lugar — e o ato de habitar só se concretiza na relação com esse objeto.

Este projeto nasce como um ensaio sobre uma nova forma de habitar, tanto no gesto como no próprio objeto arquitetónico. Foi desenvolvido para um promotor que tinha uma ideia muito clara da casa que pretendia construir, mesmo antes de possuir o terreno onde ela iria surgir. A ambição era criar habitação acessível, com tipologias flexíveis, capazes de responder à diversidade dos agregados familiares contemporâneos e aos diferentes modos de viver, incluindo o trabalho a partir de casa e a convivência entre várias gerações.

De forma simples e direta, procurou-se reinterpretar o edifício de apartamentos na horizontal: um modelo que combina a economia de escala da habitação coletiva com a relação direta entre o interior e o exterior, característica da habitação unifamiliar.

Em Portugal, a tipologia townhouse teve particular expressão na expansão burguesa da cidade do Porto, entre 1763 e 1804, no contexto das reformas urbanas promovidas por João de Almada e Melo e Francisco de Almada e Mendonça, que introduziram um modelo de influência inglesa. Esse legado serviu de ponto de partida para uma leitura contemporânea, adaptada às atuais exigências de densidade, eficiência e acessibilidade.

Inspirado em cidades densas e funcionais que cresceram sem recorrer à verticalidade, o projeto propõe uma reinterpretação flexível e económica da townhouse. Para responder a um orçamento contido, optou-se por implantar o conjunto fora do centro urbano, num bairro periférico marcado pela diversidade de épocas, escalas e linguagens arquitetónicas. O novo edifício consolida o quarteirão, contribuindo para qualificar o tecido urbano envolvente e reforçar um sentido de comunidade.

A escolha dos materiais privilegiou soluções industriais e de baixa manutenção, capazes de admitir múltiplas reinvenções ao longo do tempo. O tijolo branco assume um papel central, garantindo a unidade construtiva do conjunto. É utilizado no revestimento das fachadas, na proteção e enquadramento dos vãos, como elemento de ventilação, na construção das escadas e no revestimento dos pavimentos.

O conjunto é composto por sete habitações, organizadas em torno de pátios que asseguram privacidade e conforto térmico aos espaços exteriores. Os jardins recorrem a espécies autóctones ou adaptadas ao clima local, proporcionando sombra, proteção ao vento e incentivando uma vivência quotidiana ao ar livre. As áreas sociais situam-se no piso térreo, em ligação direta com o exterior, enquanto os quartos ocupam o piso superior. O jardim comunica sempre com um espaço amplo e flexível, preparado para acolher diferentes formas de convivência, trabalho ou lazer.

No final, ao contrário de um edifício de apartamentos identificado por números e letras, estas casas reconhecem-se pelos nomes de quem as habita. Aqui, a morada é também uma relação: a casa da Sílvia fica ao lado da casa do João.

INFORMAÇÃO TÉCNICA

Localização: Parede, Portugal
Programa: Habitação coletiva (7 habitações)
Área: 677 m²
Ano: 2020–2025
Promotor: ARO Spaces
Arquitetura: Extrastudio — João Caldeira Ferrão, João Costa Ribeiro, Sara Morais, Ana Rita Carvalho e Mariana Brandão
Consultores: Pedro Fragoso Viegas Engenharia (fundações e estruturas), Augusto Matos Macedo (águas, saneamento e acústica), Blueorizon – Projetos de Engenharia (AVAC, térmica, gás, instalações elétricas, telecomunicações e segurança), António Ferreira (fiscalização)
Arquitetura paisagista: Oficina dos Jardins — Sónia Caldeira e Inês Bordado
Construção: RBDL
Fotografia: Simone Bossi

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2025-12-01
2026-03-31
2025-11-03
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